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30.04.2009
Cooperação Sul – Sul: outro olhar sobre o desenvolvimento
A complexidade das relações e problemas sociais no mundo exige estratégias que possibilitem a construção de alternativas eficientes para o desenvolvimento humano – pessoal e coletivo – baseado nos princípios da dignidade, igualdade, liberdade, respeito, solidariedade e paz. Um breve panorama sobre a localidade de graves problemas sociais, tais como pobreza, fome, violência, falta de saneamento e moradia, baixo nivel de escolaridade, acesso à saúde e emprego, nos mostra que os países do hemisfério Sul são os mais afetados. Isso não é coincidência. É o resultado da história das relações humanas que, durante séculos, manifestou-se em explorações e concorrências, subjulgandos as pessoas desfavorecidas materialmente ou em distintos estágios de desenvolvimento.
Em 26 de junho de 1945, no preâmbulo da Carta das Nações Unidas, os países signatários reconheciam que “a liberdade, a justiça e a paz no mundo fundamentam-se no reconhecimento da dignidade inerente e dos direitos iguais e inalienáveis de todos os membros da família humana”. Mas ainda foi preciso muita dor e sofrimeno para que a humanidade começasse a pensar e agir no âmbito da cooperação global. Nas décadas seguintes, essa estratégia teve como objetivo promover melhorias no nível de vida das populações, com base nas transações comerciais – o que nem sempre favorecia (nem favorece) o desenvolvimento humano e social.
Com a combinação “globalização (com enfoque mercadológico) e cooperação global”, começou-se a importar e expandir modelos de desenvolvimento, como o europeu ou estadounidense, reconhecidos por criarem o estado de bem-estar em boa parte dos países da Europa e nos Estados Unidos. A Cooperação Sul – Sul feita sob a ótica das entidades financeiras e as ditas desenvolvimentistas vai ao encontro da razão metonímica (BOAVENTURA: 2006), cuja totalidade é a ordem, a homogeneidade entre o todo e as parte não existe fora da relação de totalidade. Apenas uma única lógica governa tanto o comportamento do todo como o de cada uma das partes. As iniciativas que importaram ou aceitaram modelos existentes deram soluções parciais aos problemas, mas elevaram outros, uma vez que são próprios de uma cultura, são fruto de outra história, e não houve respeito e compreensão às diferenças.
Mais adiante, em 1978, num contexto de contínua redução da cooperação tradicional Norte-Sul, as Nações Unidas elaborarm o “Plano de Ação de Buenos Aires” – um marco da cooperação técnica entre os países em desenvolvimento. O olhar dos países do Sul se volta para eles mesmos. O Brasil, por exemplo, através da Agência Brasileira de Cooperação passa a cooperar mais com os países da América Latina. O objetivo desse órgão é coordenar, negociar, aprovar, acompanhar e avaliar a cooperação para o desenvolvimento, em todas as áreas do conhecimento, recebida de outros países e organismos internacionais.
É necessário mais que isso. É fundamental a união dos povos do Sul e o surgimento, dispersão, conhecimento de iniciativas próprias para superação de um conjunto de desafios ao seu desenvolvimento. Mas essa relação deve ir além dos interesses econômicos. Ela deve considerar as culturas dos distintos povos e reconhecer que as sociedades de todos os países, ainda que semelhantes, são distintas. Línguas, comidas, costumes, ritmos de vida, crenças, relações pessoais e sociais entre várias outros aspectos concorrem para a construção de um desenvolvimento próprio.
Nessa perspectiva, a cooperação sul – sul, como tem sido chamada, deve ser experienciada como uma importante chave na luta pelo direito ao desenvolvimento, uma vez que existe a proximidade cultural e coincidência nos problemas sociais. Ela é mais do que uma estratégia, é uma necessidade em termos políticos, sociais, econômicos e culturais. Baseada uma relação de reconhecimento e respeito, a cooperação Sul – Sul possibilita o planejamento e a execução de ações mais criativas e eficazes ano combate aos problemas locais, visando ao alcance de estágios de desenvolvimento capazes de reconhecer as pessoas como dignas, livres e iguais nos distintos aspectos e processos que marcam a desigualdade cultural e a igualdade no acesso ao exercício de direitos humanos.
A cooperação Sul – Sul também é uma importante estratégia para o trabalho das organizações não-governamentais, movimentos sociais, fóruns, plataformas entre outras entidades criadas para responder às crises humanitárias, lutar por processos de desenvolvimento justo e sustentável e defender os direitos humanos. A articulação internacional entre as entidades mencionadas, aliada a outras estratégias e competencias pessoais e profissionais, amplia as vozes de reivindicação por garantia e efetivação de direito, facilita a busca de recursos e realização de projetos e ações, promove integração cultural, possibilita a disseminação de estudos e pesquisas, facilita a interlocução com instituições governamentais locais ou mundiais com enfoque na denúncia ou proposta de novas políticas.
A partir do momento em que tais organizações criam uma relação de cooperação com vistas ao desenvolvimento justo e sustentável, elas reconhecem a co-existiencia de diversas experiências e se faz presente não pela imposição ou retórica, mas sim pela argumentação. Elas dão visibilidade ao fato de que as totalidades são feitas de heterogeneidade e que cada parte tem vida própria. Nessa perspectiva, a atuação dessas entidades produzem o aprofundamento da compreensão das relações de poder, da radicalização das lutas e ainda colocam em evidência o princípio de incompletude, que é a chave para o diálogo, reconhecimento e construção de conhecimentos.
