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Notícias

27.04.2009

INFÂNCIA ROUBADA: crianças e adolescentes no banco dos réus

Por que jovens que nunca se envolveram em atos infracionais cometem crimes brutais contra familiares?

Embora a violência tenha se tornado comum nos noticiários, alguns acontecimentos ainda causam espanto. Recentemente dois casos envolvendo crianças chocaram a população: em uma das histórias, um menino de 11 anos matou a tiros o pai que agredia sua mãe; na outra, outro menino de 11 anos matou um tio a facadas enquanto este agredia seu pai. Em ambos os casos, os agressores nunca tiveram envolvimento com nenhuma infração.

A FOLHA conversou com a psicóloga Leticia de Melo Sarzedas, professora da Unifil e há quatro anos integrante de um grupo que presta serviços a adolescentes em regime semiaberto de medidas socioeducativas, sobre os motivos que levam crianças a cometer atos de extrema agressão contra pessoas da própria família. Segundo ela, a situação é bem mais complexa do que a sociedade consegue supor.

Por que crianças que nunca tiveram envolvimento com a violência de repente tomam atitudes tão graves quanto matar um familiar?

Quando pensamos em não ter um histórico de violência, precisamos entender que uma coisa é você nunca ter tido um ato violento, outra é lembrar que vivemos em uma sociedade violenta. A criança não tem histórico, mas vive com a violência desde que nasce. Quem vê a mãe sendo espancada já tem contato com a violência. Outro ponto é a falta de vínculos sólidos familiares, religiosos e sociais. Esse estreitamento dos vínculos acarreta atitudes violentas porque as crianças não têm a quem recorrer em situações extremas.

Geralmente observamos que atos violentos vindos de adolescentes acontecem mais em comunidades de renda mais baixa. A violência ao redor dessas crianças influencia no seu comportamento?

Não podemos associar violência com pobreza. Segundo pesquisas a violência é maior nos países com mais desigualdade social. Essa diferença enorme que temos no Brasil propicia a violência, mas ela existe em qualquer lugar. A questão é que nas classes mais altas ela não aparece porque não existe uma denúncia, as crianças e jovens não cumprem medidas socioeducativas.

Mas podemos dizer que se a criança vive em um ambiente violento, as chances de ela cometer um ato criminoso é maior?

Sem dúvida. A única coisa que precisamos ter cuidado é entender que violência, além de sexual e física, pode ser psicológica, que são as humilhações e privações. Ser vítima ou observador de atos de violência de qualquer maneira pode influenciar as crianças e torná-las também agressoras. São os vínculos, sejam com familiares ou instituições, que evitam que as crianças se tornem violentas.

Outro ponto em comum nos atos violentos dessas crianças é que sempre existe um parente envolvido. Podemos dizer que não havia vínculos entre os dois?

O que precisamos lembrar é que quando a criança agrediu esse parente, também havia outro parente sendo agredido. Me pergunto aonde estavam os outros adultos que não protegeram essa criança desse tipo de atitude e não resolveram o conflito. E ver um parente ser agredido, principalmente quando há um vínculo como de mãe e pai, aumenta muito a possibilidade de uma resposta violenta. A criança estava mais tentando defender alguém do que agredir o outro. É uma proteção violenta, mas é a solução que a criança encontrou no momento.

O que acontece depois com essas crianças em nível psicológico?

Existe um intenso sofrimento porque a criança entra em um conflito de ter matado alguém, mesmo que para defender outra pessoa. Eles têm consciência do tamanho do ato que cometeram. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) prevê que as medidas socioeducativas tomadas nesses casos sejam as melhores possíveis para resguardar um ambiente em que a criança fique menos vulnerável. E sempre existe um acompanhamento multiprofissional.

Cometer um ato deste marca para sempre a vida de uma criança ou é possível fazer com que ela tenha um futuro normal depois do fato?

Temos o costume de enxergar esses atos como situações isoladas. Geralmente a realidade violenta já vem acontecendo há muito tempo. A maneira como essa criança irá se ver no futuro dependerá do acompanhamento que ela receber agora. É preciso que a sociedade não veja essa criança como um criminoso, mas como uma pessoa que está se formando, que tem um potencial para ser desenvolvido e que não necessariamente voltará a cometer atos infracionais.


Fonte: Folha de Londrina. Reportagem: Herika Fondazzi

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